Inegável a autonomia legal e doutrinária do direito eleitoral, tanto que ramo do direito cujo processo legislativo é de competência privativa da União Federal (art. 23, I, CF).

Ramo do direito público, porque trata especialmente do exercício da cidadania, que representa em - última análise - o modo como se participa dos negócios da 'polis'. Não é de se negar a relação do direito eleitoral com os variados ramos do direito.

Do Direito Constitucional colhe-se os princípios básicos, tais como democracia (art. 1º, parágrafo único), sufrágio e voto (art. 14, 'caput'), além das condições de elegibilidade (art. 14, § 3º), hipóteses de inelegibilidades (art. 14, §§6º e 7º), ação de impugnação de mandato eletivo (art. 14, §§ 10 e 11), partidos políticos (art. 17) e, ainda, sistemas eleitorais - proporcional e majoritário (v.g. art. 45 'caput' e art. 46 'caput'), regramentos sobre mandato, eleição e  posse de eleitos (v.g. art. 28 'caput'; art. 29, III e art. 78 'caput'), incompatibilidades (art. 29, IX; art. 38 e art. 54), substituição e sucessão dos mandatos eletivos (art. 79).

Na seara do Direito Administrativo, conceitos de "órgãos da administração pública direta e indireta e fundação" (art. 24, inciso II, da Lei n. 9.504/97), improbidade administrativa (Lei n. 8.429/92), crimes de responsabilidade (Dec. Lei n. 201/67), além vários outros institutos.

O Direito Civil vai dar conta de conceitos como 'parentesco' para fins da inelegibilidade (art. 14, § 7º, CF), além de 'incapacidade civil absoluta' causa de suspensão de direitos políticos (art. 15, II, da CF), dentre outros.

Do Processo Civil, o direito eleitoral, vai valer-se de vários institutos, tais como: pressupostos processuais, condições da ação, preclusão, coisa julgada, intervenção de terceiros. Ressalte-se, nesse ponto, que por se tratar de processo especial, o processo civil comum é sempre subsidiário e estará sempre afastado quando o instituto tiver tratamento no direito eleitoral.

Nesse sentido decisão recente do eg. TSE:

AÇÃO RESCISÓRIA. CABIMENTO. APLICAÇÃO. ART. 485 DO CPC. IMPOSSIBILIDADE.
A aplicação das disposições do Código de Processo Civil ao processo eleitoral somente ocorre subsidiariamente, ou seja, na omissão do regulamento específico disciplinado nas leis eleitorais.
Não é possível a aplicação analógica do art. 485 do CPC, porquanto há previsão expressa acerca do cabimento da ação rescisória no processo eleitoral, na alínea j do inciso I do art. 22 do Código Eleitoral.
A previsão da ação rescisória é de tipificação estrita em respeito à estabilidade das relações sociais e ao princípio constitucional da segurança jurídica.
Nesse entendimento, o Tribunal, por unanimidade, desproveu o agravo regimental.
(Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 692-10/MG, rel. Min. Nancy Andrighi, em 13.10.2011).

A relação com o Direito Penal está explícita no art. 287 do Código Eleitoral[1], que determina a aplicação aos crimes eleitorais, das regras gerais do Código Penal, ressalvando-se, conceitos próprios (funcionário público, art. 283, Código Eleitoral), critérios relativos às penas e sua aplicação (v.g. arts. 284, 285 e 286 do Código Eleitoral).

Na relação com o Direito Processual Penal o art. 364 do Código Eleitoral é taxativo: "No processo e julgamento dos crimes eleitorais e dos comuns que lhes forem conexos, assim como nos recursos e na execução, que lhes digam respeito, aplicar-se-á, como lei subsidiária ou supletiva, o Código de Processo Penal."

Por último, é preciso dizer que o direito eleitoral sempre foi visto como um direito de 'segunda categoria', já que a grande parte das atividades eleitorais restringem-se a atividades administrativas (inscrição de eleitores, transferências, organização da votação, apuração), geralmente desenvolvidas pelos cartórios eleitorais, relegando-se as atividades - propriamente jurisdicionais - às perlengas entre os candidatos, que - na maioria das vezes - são armas de cunho eleitoral via Justiça.

No entanto, com a advento da Constituição de 1988 (redemocratização do país) e posterior edição da Lei n. 9.504/97, que acabou com o fenômeno da temporariedade das leis eleitorais (v.g. Lei n. 8.713/93 - eleições de 1994; Lei n. 9.100/95 - eleições de 1996), iniciou-se um período de consolidação e interesse pelo direito eleitoral, tanto que, após 1997, é visível a produção científica e doutrinária do direito eleitoral.

Agora, o que se vê, é que os próprios partidos e candidatos, começam a entender a importância de uma estrutura jurídica na campanha eleitoral, como já importava o marketing e a parte financeira da campanha. Essa profissionalização do direito eleitoral tem exigido - cada vez mais - preparo dos operadores dessa área do direito. Enfim, a autonomia didática, científica e prática do direito eleitoral é fenômeno consolidado.

[1]  Art. 287. Aplicam-se aos fatos incriminados nesta lei as regras gerais do Código Penal.